Os robôs não vencerão se houver formação

A aposta na formação e aprendizagem ao longo da vida parece ser a solução para a crescente afirmação da automação no mercado de trabalho.

Acrescente automação do mercado de trabalho irá eliminar funções, sobretudo as que não carecem de competências cognitivas e de relacionamento interpessoal, advogam os especialistas. A empregabilidade dos profissionais está, hoje, ameaçada pela existência de indivíduos que, quando solicitados a agirem, obedecem mecanicamente – os robôs – e depende, dizem os expertos, de formação e atualização de competências.

O estudo “Género, Tecnologia e o Futuro do Trabalho”, divulgado recentemente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), revela que 10% da força de trabalho (54 milhões de trabalhadores) em 30 países (28 Estados-membro da OCDE, Chipre e Singapura) enfrenta um risco elevado de ser substituída por soluções de automação nos próximos 20 anos. A um “elevado risco de automação” corresponde, segundo o FMI, um grau de probabilidade de automação superior a 70%.

Alain Dehaze, CEO do Grupo Adecco, referiu, em entrevista à Agência Reuters, que as áreas administrativas e de confeção de alimentos se encontram entre as mais atingidas pelo aumento da automação. Carla Rebelo, diretora-geral da Adecco Portugal, acrescenta, ao InfoRH, que as “funções repetitivas ou as funções onde o ser humano não acrescenta valor são as que mais estão a ceder terreno à automação”. Já as “funções que requerem algum grau de soft skills continuam reservadas ao ser humano e não é previsível que deixe de ser assim”, sublinha.

Canalizadores e eletricistas, por exemplo, irão continuar a ser necessários e os profissionais que apresentarem uma formação mais ampla terão mais oportunidades, considera Alain Dehaze, para quem os rumores acerca do desaparecimento dessas profissões são muito pessimistas.

Formação e aprendizagem ao longo da vida

A escassez de competências digitais é, segundo Alain Dehaze, um dos principais problemas apontados pelos clientes do Grupo Adecco. Até 2020, só na Europa, existirão 900 mil vagas não preenchidas, devido à falta de competências digitais”, alertou, citando um estudo da Comissão Europeia.

O CEO do Grupo Adecco defende o desenvolvimento de um trabalho conjunto entre o governo e o setor privado, para colmatar a escassez de competências, porque, disse, “se não reformarem rapidamente o seu sistema de ensino, os países irão criar uma bomba-relógio”. Em concordância, Carla Rebelo, diretora-geral da Adecco Portugal, considera que “o mercado laboral só progredirá se a relação tripartida, composta por empresas, Governo e universidades estiver, de facto, operacional e coesa”.

Mas a supressão de competências depende, também, dos profissionais, que, segundo Alain Dehaze, se devem tornar mais flexíveis – característica que, a par de mais qualificações, é amplamente requisitada pelos clientes do Grupo Adecco. A procura por uma aprendizagem constante deve ser, no entanto, e de acordo com Carla Rebelo, uma responsabilidade do próprio profissional. “A responsabilidade pela iniciativa para se manter com as competências necessárias não pode ser transferida tout court para as empresas. Existem, hoje, muitas plataformas e sistemas de e-learning que nos permitem, a preços reduzidos e com total flexibilidade, ir adquirindo e aprofundando conhecimento. Esta preocupação tem de passar a ter tanta importância como têm as outras tarefas que não deixamos de fazer na nossa (difícil) gestão de tempo”, realça a diretora-geral da Adecco Portugal.

Na tentativa de combaterem a escassez de competências, as empresas podem apostar em formação e reconverter os profissionais ou despedir e contratar novos colaboradores – alternativa que comporta mais custos, segundo o CEO do Grupo Adecco. As organizações que optarem pela primeira alternativa terão de formar “as pessoas certas com as competências que lhes faltam, criando sistemas autossustentáveis que, juntamente com políticas bem pensadas de retenção de pessoal, analisem o que pode ser suprido em outsourcing, aliviando assim a dependência de determinados perfis”, explica Carla Rebelo, acrescentando que “tipicamente, esta solução de outsourcing, para alguns dos processos das empresas, assenta em especialização e claro, em economias de escala, que se revertem em benefícios económicos de exploração”.

A solução parece residir, então e segundo Alain Dehaze, na formação e aprendizagem ao longo da vida, que permitiria aos colaboradores atualizarem as suas competências e permanecerem empregáveis, à medida que os robôs assumem maior protagonismo nas organizações. Para simplificar a formação ao longo da carreira, o CEO do grupo Adecco propõe a criação de “contas portáteis”, ou “contas de aprendizagem ao longo da vida”. Como é que funcionariam? As empresas e os profissionais pagariam as suas contas e, quando mudassem de emprego, os trabalhadores levariam o capital acumulado. Se precisassem de mais formação, poderiam ativar a conta para procederem ao seu pagamento.

De acordo com a diretora-geral da Adecco Portugal, a “aprendizagem ao longo da vida é fundamental, mas ainda não é tão generalizada como deveria”. “Nos processos de recrutamento começam a encontrar-se correlações interessantes quando os candidatos apresentam essa preocupação”, afirma Carla Rebelo, que defende a aposta, pelas empresas, no desenvolvimento e programação de “planos de formação customizados às necessidades de cada colaborador”. “Formações genéricas, hoje, existem muito pouco e o foco está em identificar talento com potencial e vontade para progredir na carreira, desenhando planos com conteúdos que resolvam esses gaps”, esclarece.

O futuro do trabalho

Na chamada gig economy são os freelancers quem mais ordena. Uma parcela crescente da força de trabalho na também conhecida como economia dos biscates é já composta por estes profissionais. A formação individual será, por isso, particularmente importante, considera Alain Dehaze.

“O trabalho colaborativo é uma realidade e permitirá ao colaborador conciliar a sua vida pessoal e profissional. Também o conceito de “partilha de recursos” trará grande sinergia às empresas, maior capacidade de adaptação e será uma das alavancas do valor pago pelo trabalho, em Portugal, a médio prazo”, afirma Carla Rebelo, que reforça que o objetivo “é, e sempre foi, aumentar níveis de produtividade”.

Num mercado de trabalho tecnológico e automatizado, aos profissionais será exigida “a capacidade de fazer um autodiagnóstico e identificar o seu grau de desenvolvimento de soft skills, mapeando o seu ponto de partida com aquilo que entende que irá necessitar para gerir a sua carreira. Apenas os que quiserem ter o que faz falta terão opção de escolha. Tudo o resto, um robô pode fazer”, conclui Carla Rebelo, diretora-geral da Adecco Portugal.

 

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